segunda-feira, 4 de abril de 2011
Roboaldo - Chapter II
O sol refletia nos brincos de madrepérola pendurados nas orelhas miúdas de sua cara, a saia de um verde musgo desbotado e a blusa de lã vermelha combinavam de alguma forma. Linda era uma criatura que passava despercebida, a não ser pelos sapatos estranhos que usava sempre com saias, nada mais nela chamava a atenção.
Para Roboaldo não.
Quebrou na Bento Martins e deu na Duque de Caxias, ficou ali parado como se esperasse alguém. Não estava muito movimentado, apenas uns taxistas esperavam na praça. Quando avistou Linda quase não acreditou, o coração começou a bater descompassadamente e os joelhos cambalearam. Ela vinha na sua direção, com os cachos loiros e a raiz preta.
Jurou que não falaria nada, mas não resistiu, seus olhos imploravam para que ele fizesse algum comentário. Podia ser sobre as raízes mal feitas, sobre a saia desbotada ou sobre o dia lindo que fazia, não importa.
- Tem horas?
Leitor, ela não sabia que ele era apaixonado ainda.
- Horas?
- Sim, o horário...
- Ah sim, são quinze pras.... ah, não acredito...
- O que?
- Não nada, só lembrei que essa é a hora dar água para as begônias.
- Begônias?
- Isso, tipo aquelas dos contos do Caio Fernando.
Ele não sabia quem era Caio F.
- Ah claro! devem ser lindas as suas begônias, porque as do... do... as dele eram realmente lindas, não que fossem de verdade, nos contos pelo menos eram lindas...
- São quinze pras três.
- O que?
- As horas, que me perguntou mas nos perdemos por causa das begônias.
- Ah sim as begônias...
Robolado suava ansioso e Linda permanecia serena e resplandecente.
- Bom, vou indo moço.
É como se Roboaldo estivesse numa noite fria em Buenos Aires, e o vinho descendo leve e singelo na garganta quente fizesse um arrepio no corpo.
Linda não entendeu, mas gostou do papo. Robolado era mesmo um cara de sorte.
CONTINUA
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Meu Caro
Isso mesmo, tudo que sinto vou falar, agora.
Mas tu não sabes da metade, ah se soubesses não estaria me perguntando assim.
Todas as vezes que pensei em te contar, desisti. Desisti porque não se contam certas coisas.
A certas pessoas.
Na verdade quero e não quero essa conversa.
Quero que tu saibas aquilo que ninguém sabe, ok?
Quando nos despedimos, pensei que nunca mais ia te ver, mas te vi.
Te vi várias e várias vezes, passando perto de mim.
Eu sei que tu querias me parar, dizer um monte de coisas. Diz!
Ainda dá tempo meu bem.
Eu também quero te contar coisas que não se fala assim, pra qualquer um.
São coisas tão íntimas ou banais que só eu e tu sabemos.
Passa aqui em casa mais tarde, prometo fazer aquele chá que gostas.
Toma e escuta, porque vais gostar.
beijos
sábado, 2 de outubro de 2010
Recomeço de um fim.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
a caixa.
Depois de alguns minutos pensando o que fazer, dei um empurrãozinho com a ponta do pé pra ver se detectava alguma coisa. Percebi que o artefato tinha um peso razoável. Talvez pudesse ser um gato, daqueles que as pessoas largam por ai, mas não... se o gato estivesse vivo, estaria no mínimo miando. E se fosse uma bomba? daquelas caseiras, que se aprende a fazer no segundo grau? o medo tomou conta de mim por completo. Pensei em sair correndo, em chamar o batalhão especial de desarme de bombas caseiras, em ligar pro meu melhor amigo ou ignorar ela. Delicadamente removi a caixa da entrada e coloquei, com o pé, ao lado da mesinha de entrada.
Fui tomar banho, comer e depois me deitei. Não conseguia pregar o olho, o fato de ter aquela coisa estranha ali a poucos metros de mim me dava arrepios.
Mentalizei que só poderia ser coisa da minha cabeça, não passava de um objeto esquecido por alguém e que amanhã mesmo o dono apareceria para pegar.
Passaram os dias e ela permanecia ali, e eu também. Qualquer atividade banal como comer, tomar banho e ler o jornal se tornava insuportável. Os pensamentos se voltavam o tempo todo para a tal da caixa, que ainda jazia estática no tapete da sala. E eu pensava como poderia estar sendo tão estúpido e covarde.
Não saia nenhum cheiro, então não podia ser nenhum corpo, ou ser vivo ou comida. Não se movia, não tinha remetente nem destinatário. O pardo da embalagem já meio desbotado não revelava nada.
Era uma noite de sexta, a música tocava silenciosamente no apartamento, o cheiro dos pimentões recheados saia do forno e chegava aos outros cômodos da casa. O tempo, morno e inebriante entrava pela janela entreaberta da sala. Ali estava eu, pela primeira vez com a caixa perto de mim. Começei a remover com cuidado as fitas que lacravam o terrível que se escondia lá dentro. Foram quase quarenta minutos num vai e vém de dedos e pensamentos. E se fosse um engano? se fosse um engano, me sentiria mais frustrado do que se fosse um gato morto. Detesto enganos.
Ali estava eu, imóvel. A música parou, a noite se estendeu, as abas se afastaram e conclusivamente revelaram o conteúdo desconhecido.
Meus olhos fitaram por apenas alguns segundos, percebi que a caixa era apenas um chamariz, consegui voltar a viver. E então, acordei.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Roboaldo - chapter I
Apesar do porte esguio e da breve aparência de menino de apartamento, Roboaldo tinha uma malícia na vida como ninguém. Negociava e questionava quase tudo, desde o cover artístico na cervejaria da esquina até a conta do motel (essa última situação não muitas vezes). Ficava horas na frente no espelho todas as manhãs, se perguntava se estava bem apresentável e atraente, por conta disso deixava os botões da camisa semi abertos e os sapatos muito limpos.
Mas bem, voltando à Linda. Era uma garota diferente das que Roboaldo costumava conhecer, gostava de Pink Floyd, Yes e The Smiths. Fumava uns charutos estranhos do pai dela e vestia saias e tênis, combinação que o deixava sempre levemente constrangido. Achou estranho de primeira, mas logo foi se acostumando com o jeito de Linda.
CONTINUA
sexta-feira, 9 de julho de 2010
No surprises
Junto as coisas inacabadas do meu dia, o que não disse ou até tentei dizer.
Hoje, antes de acordar, me lembrei daquele trato de te fazer sempre feliz, todo o dia. Quando levantei e os pés no chão frio dissiparam um pouco a lembrança. Como eu queria ter forças pra te alegrar, pra carregar todos os teus fardos, ansiedades, perguntas e respostas. Se isso não posso, de que jeito vou te mostrar o quão maravilhosamente enorme tu és aqui dentro de mim?
Te vejo todo o dia, e todo o dia ainda descubro coisas em ti, essa complexidade intrigante, essas coisas engraçadas que dizes e fazes. Todos riem, eu não.
Quando me calo, quando viro o rosto ou mordo os lábios ao invés de falar não pense que desisti, eu estou ali para você a qualquer momento, e de novo e de novo.
O mundo pode ser uma igreja ou nós mesmos, depende. O meu pedido agora é a constância dessa vida, chega de variações ok? Acordaremos todos os dias, nos olharemos e teremos sempre certeza. A dúvida foi-se junto com o medo.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Engano
- Alô.
- Por favor, o Seu Aristeu taí?
- Aristeu? que Aristeu?
- Ah, deve ter sido engano então...
- É... deve ter sido.
- Ta bom então.
- Não foi nada, tchau.
- Espera...
- Como?
- Eu disse, espera ai.
- Aqui?
- Sim, ai na linha.
- To aqui.
- Sabe... tava precisando conversar.
- Olha, desculpa... o feijão ta no fogo...
- É só um minuto, prometo.
- Mas é que...
- É que eu tava aqui sozinho, e pensei que...
- Olha, já vou avisando que sou comprometida.
- É?
- Sim.
- Hum, tudo bem.
domingo, 6 de junho de 2010
Contigo Puedo Solo
Coisas que pensei em falar mas enquanto estávamos caminhando
ficaram perdidas no frio da noite.
Hoje quero dizer-te o quanto eu me senti bem quando tu colocou a tua mao sobre
a minha, na mesa do almoço.
Quando passou a mao sobre o meu queixo, acariciando e olhando com ternura.
O frio te trouxe pra perto de mim e entrelaçou tua perna na minha.
O vento e as ruas tranquilas cruzavam intensas a avenida.
A luz brilhante no interior do teu sobrado veio me acalmar.
Mas antes que esqueça, quero te fazer umas perguntas.
Coisas que pensei mas deixei pra lá enquanto nos olhávamos profundamente.
Meu bem, quando sorri e as covinhas do teu rosto saltam,
é como se o mundo inteiro parasse para nós,
e eu volto a sentir aquela plenitude que me vem às vezes.
Quero te fazer umas perguntas...
deixa que o teu olhar responda e cale a saudade que tenho de ti.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
[passado]
Eu costumava ir ali, eu me sentia feliz, era bom eu realmente tinha razão. Quase sempre não conseguia dizer tudo que eu queria e nos dias seguintes eu ficava tentando voltar atrás pra criar situações e dizer tudo.
Mas o tudo era nada também, porque tudo que eu queria dizer talvez não adiantasse se do outro lado não era o certo. Mas e agora? Não sei, deixa eu continuar...
Mas eu escolhi acreditar que era o certo, pensando bem... eu sempre escolho isso.
[presente]
E o vento roça no meu pescoço e balança as camadas da minha roupa, já é tempo de ir novamente pra lá. Meu chaveiro balança ao som dos carros e vou caminhando [correndo] em direção.
Em um breve momento viro o rosto e parece que te vi! Será que eras tu? Tão brilhante, tão ofegante, tão tímido por entre as paredes daquela rua.
Mesmo sem saber, continuo. Os cacos de paralelepípedos atrapalham no meio da rua, e o zunido das casas noturnas abafa o meu cantarolar.
Enfim chego. Hum... como é bom chegar e ver que está tudo ali, tudo sim! Como é bom sentir o cheirinho do teu cabelo passando de um lado pro outro. O brilho da tua face esconde o cansaço da minha. Ausente não está mais, os teus degraus não me cansaram.
[futuro]
Mais um pouquinho antes de dizer adeus? Eu que direi, tu que pensas que dirás.
Meu braço perde a força e solta o abraço.
Mas um tempo depois... como é bom voltar lá.
